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domingo, 4 de agosto de 2013

Porque eu choro por minha cesárea ~ por Ana Cristina Duarte


"Há 15 anos tive uma cesariana que eu não desejei. E por muitos anos eu dela me queixei. Felizmente só encontrei à minha frente pessoas que compreenderam minha frustração. Jamais fui julgada por isso, nem fui aconselhada a deixar esse assunto de lado. Nem todo mundo, no entanto, tem a mesma sorte. Recebo muitas mensagens de mulheres que choram escondidas por suas cirurgias, porque não podem mais chorar para seus companheiros, suas mães, suas amigas.

Há, na sociedade, a ideia de que não há porque chorar quando o resultado de uma cesariana é um bebê vivo e (pelo menos aparentemente) saudável. Se a mãe sobreviveu e o bebê também, só devemos comemorar, é o que pensa a nossa sociedade. A mulher que chora depois de uma cesariana em que todos saíram vivos, muitas vezes é julgada como egoísta, vaidosa, insensível, entre outras características negativas.

O objetivo dessa nota é explicar porque essas mulheres choram, e como elas conseguem, ao mesmo tempo, ser gratas pela presença de um filho saudável em suas vidas, e ao mesmo tempo estar tristes por suas cirurgias. O que eu posso adiantar aqui é que toda mulher que chora sua cesariana é feliz por ter um bebê. É possível perfeitamente separar as duas facetas da história: um parto horrível e o nascimento de uma criança maravilhosa. Só para exemplificar, imagine que você sofra um terrível acidente de carro e o homem que te ajude a sair das ferragens venha a ser, mais tarde, o seu companheiro. É possível ter um grande trauma do acidente e amar profundamente esse homem? É possível, inclusive, ser grata por esse traumático e inesquecível evento, por ele trazer essa pessoa à sua vida? Claro que sim!

Imagine o corredor que se preparou durante toda a vida para uma maratona, e no dia da prova mais importante de sua vida, a Volta de Paris, para a qual inclusive ele guardou dinheiro por muitos anos, ele sofre uma parada cardíaca e é milagrosamente salvo pela equipe de retaguarda. É possível que ele diga que foi uma experiência horrível, traumática, embora ele seja eternamente grato por ter sido salvo pela equipe de resgate? Claro que sim!

Portanto, esclarecendo, é possível ter uma grande mágoa pela cirurgia, tenha sido ela necessária ou não, e amar o fruto dela infinitamente. A outra questão é o significado dessa cirurgia na vida de muitas mulheres. Apesar de sermos campeões internacionais de cesarianas, e estarmos imersos numa cultura muito arraigada de cirurgias marcadas e "necessárias" para salvar bebês de seus perigosíssimos cordões (sendo irônica, claro), o fato é que muitas mulheres não querem passar por uma grande cirurgia para ter filhos.

Deixe-me explicar: imagine que você tenha um grave problema na garganta que te impeça de engolir. Imagine que então você tenha que passar a se alimentar por uma sonda gástrica, por onde o alimento é introduzido em seu estômago. Veja, é o mesmo alimento que você ia comer, mastigar e engolir, só que ele será liquefeito e injetado na sonda, para que você não precise engolir. Para somar, olha que bênção, você nunca mais correrá o risco de engasgar! Aliás, voltando à gratidão, suponhamos que a técnica tenha, inclusive, salvo a sua vida. Você pode até ser grato por ter sido salvo. Mas também é possível que você passe o resto da sua vida lamentando não poder mais mastigar, sentir o alimento descendo pelo esôfago, a sensação do alimento na boca, nas papilas gustativas, etc..

Ou se você não puder mais esvaziar sua bexiga naturalmente, passe por uma cirurgia que retire a bexiga e o resto do "equipamento", e você passa a usar uma bolsa acoplada à perna. Afinal que diferença faz na vida de alguém não poder ir ao banheiro? Não é até mesmo uma vantagem? Basta esvaziar a bolsa uma vez por dia em qualquer lugar. Não tem mais infecção urinária, ficar apertado para ir ao banheiro, ter que sair no meio do filme porque esqueceu de ir ao banheiro antes de começar a sessão. Acabaram os seus problemas urinários.

Se você for homem, imagine ter sua próstata retirada por causa de um câncer ou porque o médico descobriu um jeito de ganhar bastante dinheiro retirando próstatas saudáveis. Ainda que você tome bastante viagra para o resto da sua vida e possa ter uma vida sexual normal, você não acha que pode ser que a cirurgia te deixe revoltado para sempre?

A questão é que, para muitas mulheres, não poder dar à luz naturalmente é quase como um aleijamento, uma mutilação. A sensação de ter alguém que foi lá, abriu-a e retirou seu bebê é absolutamente frustrante. Não sentir a passagem do bebê por dentro do corpo pode ser, para essas mães, um débito para toda a vida. Pode ser um trauma, uma tristeza, uma frustração incurável. Ela não está dizendo que não é grata pela vida do filho. Ela está dizendo que a cirurgia não foi uma forma divertida e funcional de dar à luz.

Vamos somar a isso o fato de que a imensa maioria das mulheres operadas hoje, tanto no SUS quanto no serviço privado, não precisavam dessa cirurgia. Dos 15% recomendados pela OMS, já estamos em 52%. São quase um milhão de cesarianas desnecessárias no nosso país, por ano. É uma epidemia grotesca, da qual tantas mulheres são vítimas. Quando você encontrar uma mulher operada no SUS, tem mais de 50% de chances de ter sido uma cirurgia evitável. Quando você conversar com uma que teve sua cesariana no setor privado, tem quase 80% de chances dessa cirurgia ter sido desnecessária e feita por razões comerciais e corporativas.

Portanto, só o que eu peço, quando estiver ouvindo o desabafo dessa mulher operada, é que você esteja com o coração aberto para compreender sua dor. Entenda que a dor dela, física e emocional, não é frescura nem fricote. Aceite que essa dor e essa tristeza não tem nada a ver com a alegria e o prazer que o bebê representa em sua vida. Ela só quer que você a ouça, que a compreenda e não a julgue. Ela só quer a sua empatia. A única coisa que você precisa responder é: "Querida, eu te entendo. Eu entendo sua frustração. Eu sei que você desejava um parto." Não prolongue. Não comece com "Mas pense que ..., mas pelo menos ..., mas em compensação...". Apenas ouça e mostre sua compreensão. Um dia ela irá se curar e você não pode percorrer esse caminho por ela.

Obs: Nesse texto não incluí uma outra classe de frustração e trauma, que é a do parto vaginal violento, e que pode gerar problemas físicos e emocionais dramáticos. Fiz isso de propósito, pois o tema será tratado num texto exclusivo. Reconhecermos um drama não significa que não estamos reconhecendo todos os outros dramas do mundo, afinal de contas.


Obs2: Quando uma mulher fica triste por sua cesárea, ela não está, de forma alguma, julgando a sua cesárea ou as suas escolhas. Por favor, não se coloque na defensiva."

Ana Cristina Duarte

sábado, 3 de agosto de 2013

Meu bebê é grande, mas eu sou um mulherão! ~ por Ana Cristina Duarte


"Bebê grande não é indicação de cesariana. Quer dizer então que a natureza preparou um bebê dentro do útero de uma mãe que não tem como sair? Mais ou menos como um marceneiro montar um armário dentro da oficina que não tem como sair pela porta? Bom, o marceneiro burro pode até perder o armário, paciência. Mas a natureza não é burra, e não tem caché energético para bancar bebês que são feitos por 9 meses e depois não podem sair, matando a si mesmos e às suas mães.

Na natureza, nos últimos 100 mil anos, cada vez que uma mutação genética fazia um bebê ser gigantesco para sua mãe, o que acontecia era o óbito de ambos. Esses genes malucos de bebês gigantes jamais puderam se reproduzir e perpetuar em nossa espécie. O tamanho dos nossos bebês não é fruto do acaso, do sorteio. Ele foi moldado pela seleção natural ao lonto desse longo período. Curiosamente nos últimos 40 anos, que é aproximadamente a idade da indústria da cesárea no Brasil, começaram a pipocar os incontáveis casos de bebês que não podem nascer por serem enormes.

Vamos aos fatos:

1) Não há como saber o peso dos bebês no útero. A ultrassonografia é uma tecnologia absolutamente inapropriada para cálculo de peso. Aparelho de ultrassom transforma onda sonora em imagem, e a imagem é medida por um computador, que joga tudo numa tabela internacional e dá um peso estimado. Não é de se surpreender que o erro chegue a 20% e que albuns bebês nasçam com até 1 kg de diferença entre o estimado e o real.

2) A bacia das mulheres têm flexibilidade através de seus ligamentos, que é aumentada pela relaxina, um hormônio que tem níveis elevados durante a gestação. A bacia interna (que é por onde o bebê passa) não tem como ser medida com precisão. Tamanho de nádega materna não é tamanho de bacia. Uma mulher pode ter um bumbum bem grande (como essa que vos escreve) e uma bacia pequena internamente (não é o meu caso). Outra pode ser magérrima, tipo Gisele Bundchen com fome, e ter uma bacia interna muito grande.

3) Os ossos da cabeça do bebê são soldos (a famosa "moleira" é justamente um dos espaços entre esses ossos). Durante o trajeto do canal de parto, os ossos se sobrepõem, formando um cone. Quando o bebê nasce, sua cabeça tem quase o formato de um ovo. Em poucas horas esse cone se desfaz e a cabeça fica redonda. Por isso também, as medidas do crânio do bebê calculadas pelo ultrassonografista não servem para absolutamente nada. Só servem para diagnosticar possíveis patologias fetais e predizer problemas de saúde do recém nascido. Essas medidas podem até ser úteis a um neonatologista, mas nunca a um obstetra.

4) Existe a possibilidade do bebê adentrar a bacia pélvica de forma inadequada e não passar. É a chamada desproporção céfalo-pélvica (DCP). Esses são os bebês que poderiam morrer se não fosse pela cesariana. Porém o único modo de diagnosticar uma desproporção é aguardando a mulher entrar em trabalho de parto, aguardando toda a dilatação do colo do útero (total, ou praticamente total), aguardar algumas horas (por volta de quatro ou mais, se o bebê estiver bem), sem que ele desça pelo canal de parto. Ainda assim é importante se tentar pelo menos uma analgesia por algumas horas antes de se decidir por uma cesariana por DCP.

5) Já assisti desproporção em bebês de 2500g e já vi bebês de 4700g nascerem em partos muito rápidos. Em outras palavras, o peso não tem NADA A VER com passar ou não passar. Já vi mulher de 1,80m ter desproporção e mulher de 1,40m ter parto muito rápido e fácil. Em outras palavras, tamanho de mulher não tem NADA A VER com passar ou não passar. O tamanho do marido também não tem qualquer importância nessa equação.

6) A altura uterina não tem qualquer utilidade para se determinar se um bebê vai passar ou não, pois ela depende de muitos outros fatores que não o peso do bebê.

7) Bebês grandes não tem maiores chances de "rasgar" os tecidos da mulher durante seu nascimento. O risco de laceração ocorre principalmente pelas intervenções (ocitocina, Valsalva, litotomia, Kristeler) e pela velocidade da saída do bebê. Técnicas de preparação do períneo durante a gestação têm sido promissoras no sentido de evitar lacerações de períneo e devem ser empregadas não importa o tamanho estimado do bebê.

8) Distócia de ombros, quando o ombro fica preso depois do nascimento da cabeça do bebê, é um evento muito raro, que fica um pouco mais provável com o uso de manobras como o fórceps e kristeler.  Mais da metade dos raros casos de distócia acontece em bebês que não são considerados grandes. Seriam necessárias mais de 300 cirurgias cesarianas em gestações de bebês supostamente grandes, para evitar um único caso de distócia de ombros. Essas 300 cirurgias certamente fariam muito mais mal a essas 300 mães e 300 bebês do que as consequências em geral passageiras de uma distócia de ombros.

9) Tamanho de vagina não tem nada a ver com essa questão. Se a mulher tiver algum problema nesse sentido, pode até solicitar a possibilidade de uma analgesia para o final do parto, para não sentir a passagem do bebê, caso entre em pânico durante o período expulsivo. De toda forma, a vagina é composta por tecidos musculares, que são muito flexíveis. A DCP se refere aos ossos da pelve materna, e não aos tecidos moles.

10) Não existe bebê tão grande que pode "entalar". O ponto mais estreito da bacia é uma linha imaginária que passa pelas duas espinhas isquiaticas. Ou o bebê passa ou ele não passa por esse ponto. Se o bebê não passar pela linha, ele nasce por cima. Se passar, nasce por baixo. Não existe um "purgatório" na bacia, de onde a criança jamais poderá sair. Sempre dá para nascer, por baixo ou por cima.

Em resumo, eu considero prática de má fé qualquer indicação de cesariana baseada em medidas, seja de altura uterina, tamanho de cabeça, peso calculado pelo ultrassom, medida da bacia por raio X, tamanho do bumbum, número de calçado ou tamanho dos ombros do marido estivador."

Ana Cristina Duarte ~ obstetriz

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Deixe-nos PARIR!!!! Um texto da AC



Amiga parteira, amiga(o) médica(o): quando a gestante te ligar dizendo que está com medo, está cansada, está com dor no ciático, está muito inchada, descarta qualquer patologia (por telefone ou pessoalmente), o seu papel é de acalmá-la, trazer à realidade, lembrá-la do quão importante é o parto natural para ela e para o bebê, lembrá-la de que qualquer intervenção agora sem uma razão clínica, não é a melhor escolha para eles. Ela não está pedindo uma cesárea, nem internação, nem indução, nem intervenções. Ela quer ajuda! E essa ajuda pode ser uma massagem, acupuntura, conversar com a doula, passar em consulta com você para se acalmar, frequentar o grupo de apoio, escrever para o grupo virtual de mães, etc..
Querida(o)s Amiga(o)s profissionais de saúde: as mulheres querem ser cuidadas, só isso. E nem sempre abrir a barriga ou interromper a gravidez daquela mulher sem uma razão clínica é o melhor cuidado que se pode oferecer!
Se você não aguenta mais, procure seus colegas mais "radicais". Divida suas angústicas! ACD
5 Técnicas de Assistência ao Período Expulsivo (TAPE), para médicos, enfermeiros obstetras e obstetrizes (dados ainda não publicados):
1) Sentar sobre as próprias mãos até ficarem dormentes. Soltar as mãos e balançar no ar até a circulação voltar. Sentar novamente. Repetir até o nascimento da cabeça do bebê.
2) Tricot: aprenda pelo menos dois tipos de ponto, use um durante as contrações e o outro nos intervalos das contrações. Ao nascimento do bebê, verifique o tamanho do cachecol que você fez!
3) Pintura de mandalas: pinte com o máximo possível de cores, sem errar e sem sair da linha. Se sair, comece outra. Não pare antes de completar uma mandala inteira de pelo menos 20 cm de diâmetro, ou um bebê nascido, o que vier primeiro.
4) Apneia: durante a contração, prenda a respiração. Nos intervalos, respire profundamente com os olhos fechados. Conte os segundos com os dedos das mãos, para mantê-las ocupadas. Se sentir tontura, saia da sala por 30 minutos. Volte depois que se recuperar, e recomece.
5) Massagem: escolha outro membro da equipe e faça uma massagem completa com o óleo da doula, começando pelo couro cabeludo (sem óleo), depois nunca, ombros, braços e mãos, principalmente. Se você tem mais intimidade com o outro membro (e por favor, não precisa entrar em detalhes), pode continuar com a massagem até onde achar apropriado. Se necessário, solicite um recinto privativo para a enfermagem. Depois invertam. Parem quando o bebê estiver nascendo. Se você estiver sem roupa, pare quando estiver coroando e vista-se adequadamente.


Atenção amigo obstetra: bolsa rota prematura, sem infecção, não é para fazer uma cesárea. É para aguardar, fazer antibioticoterapia, corticoide, exames, repouso, internação, mas não é para fazer uma cesárea. Entenda, amigo, que nem tudo nesse mundo se resolve com cesárea. Tudo bem? Estamos combinados? Porque olha, quando você opera esse prematuro, ele pode morrer, viu? OU ter graves sequelas, porque ele é PRE-MATURO (AINDA NÃO ESTÁ MADURO). Posso desenhar, sem problemas.

Ana Cristina Duarte

sábado, 18 de maio de 2013

Porque você provavelmente vai acabar numa cesariana ~ por Ana Cristina Duarte


"Querida Amiga: saber da sua gravidez só me trouxe alegrias. Na verdade muitas alegrias e uma preocupação. Um dia o bebê vai nascer e eu temo pela qualidade desse nascimento, em tudo o que não depende de você e de sua vontade. Por isso eu queria aqui te contar porque é que você dificilmente escapará de uma cesarianam, ainda que deseje ardentemente um parto natural/normal.

Bola de cristal? Imagina, você que pensa! Curso básico de estatística, terceiro ano colegial, lembra?

Primeiro vamos aos fatos. - A imensa maioria dos hospitais privados em nosso estado, em nossa cidade, têm por volta de 90 a 95% de cesarianas.- Tem três pesquisas científicas muito bacanas mostrando que 70% das mulheres querem parto normal. - E temos a Organização Mundial da Saúde dizendo que apenas 15% das mulheres precisam de cesárea.

Em algum momento, entre o começo do pré natal e o parto, as mulheres acabam na cesárea, não precisando e não desejando.

Por outro lado, vamos ao plano de saúde.

- Um médico de plano ganha por volta de 300 a 500 reais para realizar um parto.
- Supondo que ele esteja de plantão no dia e tenha que chamar um substituto para cobrir o plantão, ele vai pagar R$ 600 a R$ 800 para o substituto. Então ele já perdeu uns 200 a 500 reais para te atender.
- Se ele deixar de atender 6 horas de consultório por sua causa, são por volta de 20 consultas de 40 reais, assim por baixo. R$ 800 de prejuízo, no mínimo. 
- Se ele tiver que pegar a estrada, pagar pedágio e chamar uma babá para dar conta das crianças, são R$ 300 reais. 
- Portanto o fato é que parto normal, para os médicos de convênio, representa um prejuízo financeiro enorme.

E por fim, vamos à terceira questão. Eu chamo isso de "Fator Varella". Disse Drauzio Varella certa vez em entrevista à Revista Claudia:- Parto normal é muito chato. É muito mais fácil botar a mulher na maca e "Pumba!" fazer uma cesárea.
O fato é que muitos obstetras não querem mais atender partos normais. Fizeram tantas cesarianas que perderam a paciência e a mão. Sem essa vivência diária do parto normal, perde a capacidade de achar soluções e operam como solução para qualquer problema. Assim, acham que passar de 40 semanas, bebê grande, bebê de costas, bebê alto, tudo é indicação de cesariana. E a maioria das obstetras optou por cesáreas, para si e para suas parentes. Idem para os obstetras homens, em relação à suas mulheres. Portanto é claro que não irão fazer para você algo que consideram "pior" ou "mais arriscado".

Às vezes o médico tem um discurso maravilhoso, e até acho que pode ter boa fé. Mas no fim, com a barriga crescendo, a pressão do convênio, da rotina, da vida doméstica, e o imenso prejuízo financeiro que ele certamente vai levar atendendo seu parto, tudo isso vai fazer com que ele não tenha outra saída a não ser pedir um ultrasom com 37 semanas e descartar seu parto porque o bebê está grande/pequeno, você está gorda/magra, o líquido ficou muito/pouco, etc.. E sua cesárea será marcada, junto com outras 2 ou 3 clientes, para facilitar a vida nada fácil que ele leva.

Eu não acho que seja sacanagem dele. Acho que ele é apenas mais um elo enferrujado de uma corrente que não nos serve mais. Não tenho soluções fáceis para você, nem sequer garantias. Só queria que você entendesse que a sua vontade, frente a essa imensa engrenagem que são os planos de saúde, os hospitais particulares, os médicos cansados e sobrecarregados, não vai representar muito, na hora da decisão. A nossa vontade fica tão menor do que tudo isso, que ela não consegue fazer a roda da engrenagem girar no sentido contrário.

Seria preciso muito mais do que desejo. Se quiser qualquer ajuda para achar as saídas, as rachaduras do sistema, me fala, que eu vou gostar muito de te ajudar. E se decidir marcar sua cesárea, faça-o sem o famigerado sentimento de culpa, que em nada nos ajuda. Entenda os riscos, minimize-os o tanto quanto seja possível, e pronto.

A maternidade não se resume ao parto, nem é definida pelo parto, assim como um casamento não se resume à cerimônia, nem por ela é definido. Eles são os portais, e como tal, tem sua importância. O que se perde num nascimento de qualidade, nós podemos recuperar ao longo da vida. Cada um de nós sabe até onde consegue ir, quais leões gostaria de matar por um nascimento suave, respeitoso, delicado, amoroso, silencioso.

Vá até onde você deseja e saiba que estou ao seu lado, sempre.

Um abraço forte!"


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Roubaram meu parto ~ por Anne Rammi

 
imagem retirada do site uol mulher

Há três anos eu tive o meu primeiro filho via cesariana, agendada na ocasião pelo obstetra que me atendia em uma situação de hipotética emergência.
Na época eu senti que havia algo errado, mas não ousei duvidar do médico e, com o selo placenta madura e indiscutivelmente antes do seu tempo, a minha primeira gravidez se encerrou às recém-completadas 38 semanas com uma cirurgia no abdômen.
Eu não vivi um parto.
Até ali eu não sabia o que era entrar em trabalho de parto, sentir uma contração. Bolsa estourar? Nem pensar! Como são as dores? Qual é a circunstância de parir um filho? Eu não sabia.
Os meses me levaram a transformar o desconforto inicial de ter vivido o nascimento do meu filho de uma forma que não atendia às minhas necessidades – de ser protagonista no maior número possível de histórias da minha própria vida – em vontade de aprender. Até hoje eu busco a verdade sobre as circunstâncias do nascimento cirúrgico do meu filho, o que me fez jogar por terra todas as recomendações, explicações e desculpas mal ajambradas do médico para encerrar a minha gravidez.
Eu aprendi muito sobre a indústria dos nascimentos, que muitas vezes tira das mulheres a chance de terem partos em troca de cirurgias agendadas, rápidas, assépticas (e não por isso menos perigosas), não raro por mero capricho do médico. E muitas outras razões as quais eu não vou detalhar agora. Três anos de muita pesquisa e envolvimento com os maiores grupos de humanização dos nascimentos do país me dão condição absoluta de afirmar: roubaram meu parto.
Quais são os sinais de que o bebê está pronto para nascer? Eu não sabia. É um sangramento ou uma pontada forte? Eu não sabia. A dilatação é rápida ou lenta? Ele teria nascido de manhã ou à noite? Que dia? Com quantos quilos e centímetros, caso a gravidez tivesse se encerrado nas mãos da natureza e não do médico? Eu não sabia.
Vinte meses depois, eu paria outro menino. De parto mesmo, não cirurgia. Que veio no dia que veio e à noite. Era maior e mais pesado do que o primeiro e não tinha nada que indicasse que ele não poderia nascer e que eu não poderia parir.
Eu lavei minhas dores no parto do segundo. Mas jamais terei a chance de parir meu primeiro filho de novo nem ele de nascer. 
Eu e ele nos olhamos fundo nos olhos sempre e trocamos confidências em silêncio. Do quanto só nós dois mesmo poderíamos ter passado por esse desafio juntos, o de superar por meio do amor. E assim desenvolvemos formas de lidar.
Nessa lida, eis que eu comecei a me manifestar na internet sobre isso, os partos roubados. Manifestar-me muito, para quem quiser ouvir. Quase compulsiva mesmo.
A cada linha escrita sobre o tema, um tanto de comemorações, outro de lágrimas, muitas aflições e julgamentos. De uma forma geral, sempre me senti mais ajudando outras mulheres –que como eu têm a necessidade de protagonismo e respeito à fisiologia do corpo feminino, ansiosas também por buscarem uma outra chance para viver um parto– do que desrespeitando ou diminuindo aquelas que não compartilham das mesmas necessidades. Muitas delas, independentemente do ponto de vista, felizes ou não com o desfecho dos nascimentos dos filhos, vítimas de partos roubados.
Uma cesariana não é um parto. É um nascimento. Pode ser lindo, cheio de emoções certamente. Coloca-nos de frente com aquele ser que nos habitou por meses, podemos olhar aqueles olhos pela primeira vez. É indescritível a sensação de conhecer seu filho, independentemente do como. Mas isso não é um parto, mulheres que adotam seus filhos têm seus próprios rituais, igualmente mágicos, de conhecer seus filhos. E eles definitivamente não são partos. 
Não são esses partos, que se pode roubar.
O parto é o processo, o rito, o portal de transição natural do corpo e da alma. Que por meio da dor do amor transforma a mulher em mãe, a gestante em lactante, engorda a família e emagrece a barriga – sem facas, sem pontos, sem grandes procedimentos. No parto, a criança é expelida do corpo da mãe, por seus esforços em conjunto, por meio da vagina, exatamente por onde entrou. Existem mil maneiras de parir, coisa que também não vou me alongar aqui, mas nenhuma delas envolve retirar a criança pela barriga.
As situações de nascimentos dos meus filhos não interferem naquilo que sinto por eles. Mas falo sem nenhum pudor que amei mais meu parto do que amei minha cirurgia cesariana. Que me senti mais mulher parindo do que me senti mulher ao ser operada pelo obstetra. Que vivenciei uma maternidade mais adequada aos meus valores no ritual que me conectava com meu corpo e com o meu filho, com nossos desejos primitivos, com silêncio, penumbra e ternura, do que no ritual cirúrgico.
Ainda que tudo isso pareça muito factual, na medida em que é a minha história, é margem para um debate sem fim: muitas mulheres que tiveram seus filhos via cirurgia cesariana sentem-se desconfortáveis com os meus depoimentos, em diferentes intensidades. Algumas sentem-se agredidas, agridem de volta. Outras evitam o assunto, preferem não debater. Outras insistem que as experiências de parto e cirurgia são as mesmas e se enveredam para a seara da competição, onde hipoteticamente uma mãe que pariu um filho seria melhor em seu exercício de maternidade do que aquela que o teve por via cirúrgica. Todas as formas exprimem a mesma coisa, são mulheres lidando com algo que simplesmente nenhuma delas aceita: ter seu parto roubado.
Seja pelo modelo obstétrico nacional que transformou o nascer em uma linha de montagem hospitalar, seja pelos discursos das ativistas, insistindo que cirurgia não é parto.
Ninguém gosta de ter seu parto roubado."
Anne Rammi 
Fonte: mulher.uol

Tipos de Cesarista ~ por Érica de Paula

"ESCOLHA SUA EQUIPE!

Ao longo de alguns anos trabalhando com gestantes e partos, aprendi que no mundo dos nascimentos é assim: 

Existe o Obstetra Cesarista 171 Aquele que engana deliberadamente as pacientes com indicações estapafúrdias de cesariana. Esse profissional marca cesáreas eletivas com 40 semanas ou menos porque “não pode correr riscos”. Possui “o dia de operar” (toda segunda feira, por exemplo, que é pro pai ter os 5 dias da licença paternidade emendando com o final de semana) e adoram frases de impacto com nuances de terror psicológico como: “o meu objetivo é te entregar um bebê saudável”. Ele diz que faz parto normal, mas gasta metade da consulta para te convencer que o parto é um evento muito arriscado e o corpo humano é uma bomba prestes a explodir. Ele adora contar casos escabrosos de partos normais, mas omite sua estatística pessoal de intercorrências derivadas de uma cirurgia desnecessária de grande porte (e a quantidade de bebês internados na UTIn que nasceram antes de estarem preparados). As pacientes juram que ele também faz parto normal, porque ouviram dizer que a vizinha da prima chegou com o bebê coroando no hospital e ele não empurrou de volta pra fazer a cesárea. Ou então, sabem que com ele só rolam cesáreas, mas pensa que com ela (paciente de muitos anos) será diferente. Infelizmente, a indicação da desnecesárea provavelmente vai acontecer quando a paciente está com a gestação avançada demais para ter coragem de trocar de obstetra. 
Existe o Obstetra assumidamente cesarista 
Aquele que fala na lata que não faz parto normal (seja por que não acredita, não gosta ou não ganha o suficiente pra isso) e manda você procurar outro médico caso insista na idéia de "parir como índia".
Existe o Obstetra desatualizado 
Aquele que se formou há 2 ou 3 décadas e até hoje não descobriu que o cordão umbilical não é assassino e que episiotomia não protege o períneo coisa nenhuma. Esse coitado acredita de verdade que está fazendo o melhor para a paciente. Ah, eu falei que ele se formou há 3 décadas? Não, existem muitos recém formados nessa categoria também, que em vez de terem o site da Biblioteca Cochrane nos seus favoritos ainda estão se baseando no bom (?) e velho Rezendão pra basear suas práticas.
Existe o Obstetra bem intencionado
Aquele que até sabe que parto normal é melhor pra mulher e pro bebê, que até "faz" alguns partos normais (não passa de 50% da sua estatística), mas que na prática deixa muito a desejar para mulheres e casais mais empoderados e exigentes. É aquele que fala: “SE estiver tudo bem podemos TENTAR um parto normal” (como se estar tudo bem fosse uma exceção, e não a regra – frase muito comum para os médicos das categorias anteriores também). 
Existe o Obstetra "Tipo Humanizado"
Aquele que você podia jurar que é humanizado e altamente radical porque topa alguns parto de cócoras, com doula, às vezes até na água, mas que ainda escorrega em muitos preceitos da humanização, sobretudo no protagonismo da mulher e na Medicina Baseada em Evidências. Por exemplo: não deixa passar de 41 semanas mesmo estando tudo bem e sendo esta a vontade da gestante, interna com poucas horas de bolsa rota, usa muito mais ocitocina sintética ou faz muito mais episiotomias do que deveria, adora fazer um descolamento de membranas ou colocar um “comprimidinho” na vagina para induzir o parto, faz toques excessivos e desnecessários durante a gravidez e o trabalho de parto, manda a mulher prender a respiração e fazer força compriiiiiida, pede um monte de USG desnecessária no final da gestação, diz que a bacia da mulher pode não ser tão boa ou que o bebê está grande demais, etc e tal.

*** Existem os médicos que estão na transição entre a categoria anterior e a próxima ***
Existe os Obstetras Humanizados pra valer
Aqueles que realmente acreditam, gostam e bancam o que estão fazendo, estão atualizadíssimos com as evidências científicas mais recentes (e por isso mesmo incentivam que a mulher tenha uma doula), permitem que as gestantes escolham qualquer posição que se sintam confortáveis para parir (nem que pra isso eles tenham que se sentar ou deitar no chão pra pegar o bebê, ou se molhem todos num parto na água) e respeitam o local de parto escolhido pela gestante com gravidez de baixo risco (seja em casa, no hospital ou numa casa de parto). Em geral, esses raros e preciosos profissionais não aceitam fazer cesariana eletiva sem indicação (o que significa que suas taxas de parto normal estão por volta de 80 a 85%), peitando a resistência dos hospitais e o deboche dos colegas médicos, pois seu compromisso é com a mulher, e não com o sistema. Eles informam o casal sobre todos os procedimentos realizados e estão dispostos a extrapolar alguns limites dentro do pressuposto de responsabilidade compartilhada e respeito às escolhas da gestante. Confiam e sabem que a natureza é sábia, que a mulher é poderosa e que o médico só deveria intervir quando necessário. Ou seja, eles possuem a humildade de simplesmente não fazer nada a maior parte do tempo, além de aguardar pacientemente. Para esses, toda a minha admiração e gratidão! 

Nesse universo do parto, também existem DOULAS e doulas, PARTEIRAS e parteiras (falo das parteiras formadas e urbanas), PEDIATRAS e pediatras, sem esquecer das parteiras tradicionais (que cuidam de uma parcela específica e significativa da população) e de uma nova categoria que está surgindo agora, que são as parteiras “tipo tradicionais” (!!!). Mas esse é assunto para uma próxima conversa (em breve!)."


Érica de Paula acupunturista, doula, educadora perinatal e co-autora do documentário "O Renascimento do Parto"

Fonte: "Moças: teu GO é cesarista fan page no face book

domingo, 12 de maio de 2013

Riscos da cesariana

Imagem retirada da internet

"Para o bebê:

1 Risco de complicações e desconforto respiratório
2 Demora maior para o leite "descer"
3 Maior probabilidade de aspiração com cânulas no bebé após o parto (vias aéreas e orais)
4 Risco de morte 10x maior para o bebé

5 Grande probabilidade do bebé ficar longe da mãe após nascer
6 Maior risco de infecção neonatal por aspiração de mecônio
7 Maior dificuldade no aleitamento
8 Maior probabilidade de desmame precoce
9 Lesão do bebé (na hora da cesariana)
10 Maior risco de morte fetal inexplicável no final da gestação seguinte
11 Dificuldades de vínculo com a mãe
12 A mãe pode precisar de analgésicos fortes para aliviar a dor no pós-parto e estes podem passar para o bebé através do leite
13 Maior risco de internamento do neonato em UTI 

Para a mãe:

14 Risco de ruptura uterina aumentada no próximo parto, caso sejam utilizadas oxitocina artificial no soro e/ou anestesia.
15 É difícil encontrar um médico que faça partos normais após cesarianas pois são dependentes das drogas citadas acima
16 Risco de morte 4x maior
17 Risco de infecção hospitalar
18 Pós-parto demorado e dolorido.
19 Depois o desconforto da cirurgia, a dor, a maior dependência de outras pessoas para cuidar do bebé.
20 Dificuldades para engravidar posteriormente, maior risco de infertilidade posteriormente
21 Risco de endometriose
22 Risco de hemorragias, transfusões e morbilidades provocadas por transfusões
23 Sensibilidade na cicatriz a longo prazo (coceira, dor, sensação de estiramento, etc.)
24 Dormência na região entre a cicatriz umbilical e corte cirúrgico.
25 Formação de Aderências
26 Aumenta as probabilidades do próximo parto ser cesariana
27 Lesão no intestino (na hora da cesariana)
28 Maior Risco de trombose doenças correlatas (incluindo embolia)
29 Risco de acidentes com anestesia
30 Risco da anestesia não pegar e ter que fazer uma anestesia geral
31 Maior incidência de Inserção Baixa de Placenta
32 Maior probabilidade de Acretismo Placentário
33 Histerectomia (perda do útero) devido ao sangramento
34 Maior necessidade de transfusão sanguínea
35 Morte materna devida a hemorragia, consequente a inserção baixa de placenta
36 Maior risco de atonia uterina
37 Maior risco de embolia pulmonar
38 Maior risco de trombose venosa profunda
39 A próxima gravidez não mais será de baixo risco
40 Risco de reiteradamente, recuperação por infecção da cicatriz, deiscência de pontos, sangramentos, etc.., com consequente afastamento do bebé
41 Dificuldades de vínculo com o bebé
42 Não realização da plenitude da maternidade.
43 Maior índice de depressão pós-parto 

Se a cesariana foi feita antes do trabalho de parto, marcada com antecedência pelo médico, além dos riscos acima podemos adicionar:

44 Risco de prematuridade do bebé
45 Um desrespeito monstruoso e uma tremenda violência à mãe e ao bebé
46 A perda da oportunidade da primeira descoberta de sua própria força e capacidade de luta
47 A perda da energia que estava sendo guardada para o momento do parto, que gera frustração
48 A perda da oportunidade de vivenciar uma situação que lhe daria noção de foco, de fazer esforço numa direcção e sentido correcto
49 Quem convive com essas consequências de uma desnecessária, aprende as verdades da vida de uma forma muito dolorosa... e demorada.
50 Segundo os astrólogos (para quem curte o tema), o bebé nasce com uma dualidade na personalidade (situação astrológica natural x situação astrológica forçada)

Quero deixar bem claro que não estou querendo dizer que tudo isso vai acontecer. Tudo isso PODE acontecer. São os riscos de um procedimento cirúrgico."

Fonte fan page: Parto Normal

sexta-feira, 10 de maio de 2013

E por que tanta Cesária? ~ por Ana Cristina Duarte



"O problema das cesarianas no Brasil tem quase infinitas bases. Vamos a algumas.

Pagamento por produtividade: muitos plantões médicos são remunerados por produtividade, ou seja, se nascer no plantão, a grana vai para aquele plantão. Se não nascer antes de terminar o plantão, se passar para o plantão seguinte, quem ganha o valor do parto é a equipe do plantão seguinte. O médico que passou o dia ali aguardando o parto e resolveu não operar, não ganha nada.

"Limpeza do plantão": prática que ocorre em muitos hospitais, onde o obstetra opera todas as mulheres antes de terminar o plantão, para terminar o dia com tudo "limpo", sem mulheres em trabalho de parto para a equipe que assume em seguida. Também acontece muitas vezes perto das 23h-0h, para que a equipe possa ir dormir sem ser incomodada durante a noite.

Falta de anestesista ou de obstetra: em muitas cidades pequenas não há equipes morando no local. Então, para que não haja risco da mulher entrar em trabalho de parto em um dia que não tem médico na cidade, agendam-se todas as cesarianas para o dia da semana em que os médicos estão de plantão.

Falta de especialistas: em hospitais em que se atendem nascimento de bebês de alto risco, como não há especialistas de plantão 24/7, os médicos preferem marcar as cesarianas para os dias e horários onde os especialistas estão presentes no hospital, assegurando assim que o recém nascido possa ser imediatamente atendido.

Pacotinho cesárea no SUS: alguns médicos ainda têm a prática (ilegal) de vender cesarianas a serem efetuadas dentro do SUS. A mulher paga direto para o médico, em dinheiro, e ele agenda a cesárea.

Ausência de analgesia de parto: apesar do direito legal à analgesia, na prática as mulheres não têm direito. E diante da ameaça de um parto torturante, com todo tipo de intervenção, e sem o direito a alívio da dor, as mulheres preferem fugir do parto normal oferecido no SUS.

Falta de experiência: muitos hospitais escolas, como o Hospital das Clínicas de São Paulo, por exemplo, ostentam taxas de cesáreas próximas de 65%, ou até mais. Em geral isso se dá pela falta de experiência da equipe em lidar com o parto normal em situações diferenciadas como o parto de gêmeos, parto de bebês grandes, de prematuros, de mulheres com cardiopatias ou outras doenças. Sem conseguir aplicar as evidências diretamente, quer por medo, quer por falta de prática, acabam recorrendo à cesariana com muita facilidade. No final os médicos saem sabendo fazer cirurgias, mas não sabem atender um parto fisiológico, sequer conhecem os tempos de um parto natural, sem indução.

Estrutura dos hospitais privados: o que faz o lucro das maternidades privadas é o agendamento prévio das cesarianas. Os hospitais não só recebem mais dos planos de saúde por esses procedimentos como também conseguem maximizar o uso dos leitos. Convém lembrar que a UTI neonatal e o banhos de luz são igualmente muito bem remunerados pelos seguros e planos, de modo que a cesariana acaba sendo, de longe, o mais lucrativo dos procedimentos de maternidade. O parto normal ocupa salas e enfermagem por muito tempo, tem pior remuneração pelos planos de saúde e é necessário que o hospital tenha vários leitos disponíveis, sem ocupação, aguardando mulheres que podem ou não entrar em trabalho de parto.

Medo das mulheres: depois de ouvir depoimentos incontáveis de violência obstétrica sofrida por conhecidas, muitas mulheres preferem juntar um pouco de dinheiro e pagar por uma cesariana agendada. Apesar dos riscos, apesar da dor da recuperação, não ter que passar por humilhação, dor, ocitocina, exposição, vergonha, compensa qualquer sacrifício, inclusive o financeiro. Uma cesariana hoje pode ser comprada por R$ 2.000,00 em várias cidades.

Remuneração (falta de): os planos de saúde pagam por volta de R$ 300 reais por um parto. Não compensa financeiramente para o médico conveniado. A solução é marcar mais de uma cesárea num só dia, sem comprometer o consultório e a vida privada. Alguns são honestos e já falam logo de cara. Outros vão seguindo o pré natal com frases vagas sobre o parto e no ultrasom de 37 semanas acabam "descobrindo" uma boa razão para marcar a cesariana para a semana seguinte. O parto normal pode até ter uma melhor remuneração, mas não é um prêmio de R$ 100 reais que fará um médico abdicar de sua agenda, vida familiar, consultório, plantão, para trocar três cesarianas marcadas, por três fins de semana dentro de um centro obstétrico.

Medo do parto: muitos obstetras tem medo do parto normal e acham a cesariana mais "controlável". Apesar de todas as evidências científicas, acabam sendo contaminados e às vezes congelados por experiências traumatizantes do passado. Não só não conseguem mais aguardar o parto, como recomendam a cirurgia cesariana para amigas, partentes, esposa, etc.. 

Litigância (medo de processo): historicamente no Brasil não se processa um médico por um mau resultado em uma cesariana, afinal ele fez todo o possível, usou a máxima tecnologia. No entanto qualquer resultado ruim de um parto normal é visto imediatamente como erro médico e os processos encaminhados ao CRM. Se um médico tira um bebê de 38 semanas e este vai para a UTI por desconforto respiratório, a sociedade em geral acha que ele salvou o bebê. Se um médico aguarda um parto normal e o bebê tem paralisia cerebral, não podendo (e não há como) provar que o evento foi anterior ao parto, a culpa certamente recairá sobre o parto.

Cultura da cesariana: na sociedade em geral, mesmo entre pessoas de grau educacional elevado, a cesariana é vista como algo melhor, mais seguro, normalizado, banalizado. Nas camadas menos favorecidas, ela é vista como bem de consumo, algo que só as mulheres ricas possuem, e que portanto deve ser melhor, mais desejável. A cesariana está nas TVs, novelas, nas resistas para mães (Sem Culpa). O parto normal é retratado como a opção nobre porém sofrida. Coisa de personagem que se perde na tempestade e vai parar numa choupana. As atrizes e famosas fazem cesariana.

Desinformação gerando medo: as mulheres tem pouca informação sobre o processo de gravidez e muitas ficam imersas no medo de algo acontecer. Esse medo inominável e incomensurável também é congelante e não permite que as mulheres duvidem de seus médicos, quando esses indicam a cesariana por "cordão enrolado", ou que enfrentem a família/marido e escolham outro obstetra no final da gestação. O medo é tão grande que basta a promessa de salvação feita por seu médico para que ela entregue seu corpo e todo o seu poder a essas mãos alheias.

Inoperância da ANS: a Agência Nacional de Saúde Suplementar, que deveria regular as práticas erradas no setor privado simplesmente ignora o problema, ou promove medidas tão inefetivas, que o resultado tem sido, nos últimos anos, contrário ao desejado, ou seja, aumento das taxas de cesariana. Com programas que dão pontos positivos, mas não encontram soluções efetivas, o fato é que os planos de saúde não vêem qualquer razão para saírem da zona de conforto dos 90% de cesarianas.

Conivência do Ministério da Saúde: a força com que o M.S. lutou pela amamentação no Brasil, e que poderia ter sido utilizada também na luta pelo direito a um parto digno para todas as mulheres, simplesmente esmorece ou nem chega a ser recrutada. É como se não fosse conveniente entrar em confronto com determinados setores. Por isso as medidas são sempre amenas, de "sedução", promessas de verba para reformas de centros obstétricos. Apesar de que essas medidas também são bem-vindas, o fato é que não haverá mudança significativa nas práticas sem medidas radicais do Ministério da Saúde.

Entre outras medidas precisamos (em ordem aleatória):

1) Segunda opinião na indicação da cesariana
2) Plantões nos hospitais privados que permitam um parto humanizado e digno a uma mulher que opte por usar o médico plantonista ao invés de seu obstetra do plano (mal remunerado) 
3) Fiscalização de prontuários por comissões específicas (existem indícios de que a indicação da cesariana muitas vezes não casa com o que foi dito à gestante para justificar a cirurgia)
4) Planos de saúde começarem a glosar as cesarianas sem indicação
5) Fiscalização pelos planos de saúde das UTIs neonatais (onde parte razoável dos bebês está internada por desconforto respiratório advindos de cesarianas eletivas não necessárias)
6) Programas dos planos de saúde para partos humanizados, com direito a analgesia peridural a pedido materno.
7) Remuneração dos planos de saúde para partos normais atendidos por enfermeiras obstetras e obstetrizes
8) Direito de internação de gestante para parto com enfermeiras obstetras/obstetrizes
9) Direito à informação clara sobre as taxas de cesariana de cada hospital e cada médico credenciado dos planos de saúde
10) Humanização DE FATO dos partos no SUS, aumento dos Centros de Parto Normal geridos e atendidos por enfermeiras obstetras/obstetrizes, no paradigmas do parto humanizado, natural, com o menor número possível de intervenções, com a presença de acompanhante e doula (se desejado). 
11) Direito à analgesia peridural no SUS
12) Treinamento médico adequado para o parto natural, fisiológico
13) A ANS deve estabelecer metas para redução de cesarianas, e prazos para o cumprimento das metas. Se os prazos não forem cumpridos, cabem multas aos planos de saúde. A agência pode até fornecer um estudo específico para a aplicabilidade de medidas de redução de cesariana, e propor a redução gradual: de 92% para 70% no primeiro ano, 50% no segundo, etc. EXIGÊNCIA do plantão presencial multiprofissional (obstetra, neonatologista, anestesiologista) e multidisciplinar (EOs e obstetrizes) que devem ser disponibilizados em todos os planos de saúde. 
14) Ministério da Saúde precisa se posicionar claramente a respeito do serviço privado. A ANS gerencia planos, não prestadores privados. É preciso gerenciamento do setor privado, tanto quanto do público. Há que se exigir resultados.
15) A ANVISA precisa rever a RDC 36, que regulamenta funcionamento de serviços obstétricos. A imensa maioria dos hospitais brasileiros não segue as diretrizes. E a complexidade para os serviços de baixo risco acabam inviabilizando que se faça uma casa de parto privada nos moldes das européias. O custo básico inviabiliza.

(Mais sugestões serão incorporadas ao texto, conforme recebidas pelos leitores!)

Neste exato momento, sem medidas drásticas por nenhum setor, as taxas de cesariana no Brasil continuarão subindo, assegurando ao nosso país o título eterno de Campeão Mundial.

2012 - 52%"

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Melhor dia para o parto e o pior dia para o parto. Existe isso? ~ por Gabriel Moro

Ilustração Ana Cunha

"Mães e médicos evitam partos em feriados, ignorando a importância de esperar que o bebê defina o momento certo de vir ao mundo. Entenda como as formas de nascimento interferem na saúde da mãe e do bebê.

Um estudo feito na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, por Alexandre Chiavegatto Filho, hoje pós doutorando na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, mostrou que ao analisar quase 2 milhões de nascimentos na capital paulista na última década, um dos dias prediletos para parto seria o Dia Internacional da Mulher, 8 de março. Já Natal e Ano-Novo são os mais rejeitados, assim como Finados, em 2 de novembro. Essas datas renegadas registram média de 360 partos cada uma, ante os cerca de 529 dos outros dias do ano. O pesquisador vê duas razões por trás dessa tendência: os pais não querem o aniversário do novo membro relacionado a uma ocasião negativa (caso do Dia dos Mortos) e têm certa resistência a passar feriados inteiros no hospital.

A palavra final é do bebê 
A ideia de que a conveniência interfere na decisão de agendar o final da gravidez ganha força ao se constatar que, entre 2001 e 2010, houve queda de 10,2% no número de mulheres que dão à luz aos domingos - dias considerados de folga. “As cesáreas permitem essas manipulações na data”, observa Alexandre Chiavegatto. “Só que, em troca da comodidade para a família, a criança pode nascer prematura”, alerta.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o trabalho de parto de baixo risco é feito entre 37 e 42 semanas de gestação. Mas isso não quer dizer que toda criança esteja preparada para deixar o ventre materno antes dos últimos dias desse período mais seguro. “Cada uma evolui em um ritmo”, lembra Julio Elito Junior, professor do Departamento de Obstetrícia da Universidade Federal de São Paulo. O médico explica que os pulmões, por exemplo, completam o desenvolvimento nos últimos dias de gestação - aguardá-los é vital para evitar desconforto respiratório. “O momento certo é decidido pelo bebê. Quando seu corpo inteiro estiver maduro, ele dará o aviso de que está pronto para sair”, resume o obstetra.

A recomendação da própria OMS é que a cesárea não ultrapasse 15% do total de partos. “Afinal, essa é uma operação de grande porte, na qual são abertas sete camadas do abdômen da mulher”, pondera João Steibel, representante da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Ele ressalta ainda que, embora não seja alta a probabilidade de infecção, se isso ocorre, ela costuma ser mais grave quando há cirurgia do que no processo natural. “O procedimento cirúrgico é um ótimo recurso. Mas é preciso ter uma causa justa, como o surgimento de algum risco à saúde do bebê ou da mãe”, completa.

No Brasil, na contramão do que preconiza a OMS, a taxa de cesáreas chega a 52% dos casos. “A situação é ainda mais alarmante nos hospitais particulares, onde esse índice oscila entre 80 e 90%”, afirma Maria do Carmo Leal, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública, da Fiocruz. A discrepância seria explicada pelo fato de os especialistas da rede privada serem pagos por ato médico. Ou seja: quanto maior o número de partos realizados, maior a remuneração. 
Curiosamente, um estudo com gestantes do estado do Rio de Janeiro, sob responsabilidade de Maria do Carmo, mostra que, no início da gravidez, 70% das mulheres diziam preferir ter o filho sem a necessidade de cirurgia, porém 90% acabaram se submetendo a ela. “Medo das dores e desinformação por parte das mães existe, mas não podemos ignorar a má qualificação de alguns profissionais de saúde”, critica a autora.

O fenômeno inquieta pesquisadores de diversas áreas, como Sonia Hotimsky, professora de antropologia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Ela acompanhou a formação de obstetras em duas grandes escolas da capital paulista e chegou à conclusão de que os alunos são incentivados a fazer a cesárea e, por falta de prática, muitas vezes saem da faculdade incapazes de realizar o desfecho da gravidez sem intervenções desnecessárias. Em sua tese de doutorado, Sonia argumenta que alguns professores ignoram evidências científicas de que, em boa parte dos casos, o parto normal é a opção mais indicada. “Para piorar, as decisões sobre condutas não são compartilhadas com as pacientes. Elas frequentemente nem são consultadas sobre o que será feito”, lamenta.

“Dar à luz é uma experiência única e individualizada”, reforça Daphne Rattner, professora do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília e presidente da organização Rede pela Humanização do Parto e Nascimento. “Para as mães, chegar informada ao hospital é uma forma de pressionar por mudanças”, ela defende. Tomara."